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Fabrício Costa Ferreira |
Leia as postagens no nosso blog:
- Relato de Vida - Cleo Morais
- Quebra de paradigmas [3]– Vanessa Vidal, Miss Ceará 2008; um exemplo de beleza, simpatia e força de vontade.
- Conhecendo na pele a realidade da saúde para o paciente surdo
- O médico e a família do paciente surdo
A seguir, a entrevista com Fabrício C. Ferreira:
BLOG: Você
tem conhecimento de língua de sinais? Se sim, qual o nível do seu conhecimento
sobre a língua? E a partir de quando começou a aprender?
FABRÍCIO: Tive a oportunidade de fazer parte
do curso de Libras do curso como disciplina optativa dentro da própria
faculdade. Infelizmente por haver uma sobrecarga das disciplinas na Medicina,
fiz apenas um semestre de Libras e tenho um conhecimento básico geral. Não acho
o curso muito fácil, exige muita dedicação. Durante as aulas, tivemos a
oportunidade de conviver com várias crianças e adultos surdos que dominavam a
linguagem através dos sinais, o que tornou as aulas mais prazerosas e facilitou
o nosso aprendizado.
BLOG: Você
possui algum parente ou amigo surdo?
FABRÍCIO: Não tenho parentes com amigos com
deficiência auditiva.
BLOG: Durante
o seu curso, em algum momento você foi instruído de como atender um paciente
surdo? O que lhe ensinaram sobre a surdez e sobre o paciente surdo?
FABRÍCIO: Durante o curso de graduação não
temos nenhum tipo de aula ou orientação sobre como proceder diante de um
paciente com surdez. Acredito que o curso de Libras foi extremamente válido
neste aspecto, proporcionando aos acadêmicos esta oportunidade de contato,
convivência e conhecimento. Em relação a surdez enquanto doença, é
relativamente comum a discussão nas aulas teóricas, mas as limitações impostas
no indivíduo que a apresenta, não são discutidas.
BLOG: Você já teve contato com
pacientes surdos? Se sim, relate-me as histórias. No local (hospital, UAPS)
existia algum funcionário que era intérprete?
FABRÍCIO: No meu primeiro contato com o
paciente surdo, eu era acadêmico de fisioterapia e estava em um grande hospital
de Belo Horizonte. O paciente, que não tinha acompanhante, apresentava um
quadro de infecção pulmonar grave e necessitava de fisioterapia respiratória.
Infelizmente percebi que havia certa negligência, pois boa parte dos
profissionais e acadêmicos não sabia como proceder diante daquele senhor,
deixando-o extremamente ansioso e
agitado. Eu mesmo não consegui desenvolver a atividade que foi proposta por
falta de conhecimento na linguagem, tornando a relação profissional X paciente bastante delicada e insatisfatória.
Naquele momento, eu pude perceber o quanto é necessário este conhecimento para
acolher e promover um tratamento eficaz. O senhor continuou internado no hospital realizando seu tratamento normalmente, porém não existia muito contato com o paciente. A relação profissional X paciente esteve prejudicada pela falta de comunicação. Ele esteve muito agitado, sendo necessário conter o mesmo ao leito. Talvez a falta de comunicação tenha proporcionado ou facilitado esta agitação do mesmo.
No segundo contato, no mesmo hospital, tive a oportunidade de acompanhar
o atendimento de uma família de surdos que foram atropelados. A situação foi
muito diferente, pois no setor havia
alguns profissionais que dominavam a linguagem. Pude perceber a diferença de atendimento, afinal os
pacientes encontraram pessoas que entendiam seus sinais e assim ficaram muito tranquilos e aceitaram bem o
tratamento estabelecido.
BLOG: Você conhece
o Decreto de lei nº 5626?
FABRÍCIO: Tive conhecimento sobre o decreto de
lei quando fiz parte do curso de livras, mas infelizmente não o conheço
profundamente. Em algumas aulas ele foi discutido.
BLOG: Você acha que
saber a língua de sinais é importante para a profissão do médico?
FABRÍCIO: O conhecimento sobre a língua dos
sinais é fundamental não só para os profissionais médicos, mas também para
qualquer cidadão. Ao fazer as aulas de libras, pude observar que existem muitos
surdos próximos de nós; acredito que a falta de conhecimento sobre essa
linguagem nos afasta da população surda e favorece a exclusão social.
Essa entrevista é bastante ilustrativa da realidade do acesso a saúde do
paciente com surdez. É inaceitável que um paciente não possa receber
atendimento pelo fato dos profissionais não conseguirem se comunicar com ele. E
ele pode, através de sua experiência, ilustrar a importância de se atender a
pessoa com surdez em língua de sinais: no primeiro relato, o paciente ficou “ansioso
e agitado”, e no segundo, a família, “muito tranquilos e aceitaram bem o
tratamento estabelecido”. E isto vem corrobora a defesa do ensino da Libras nas
faculdades da área da saúde. O que felizmente acontece na Faculdade de Medicina
de Barbacena. O que precisamos fazer é incentivar os acadêmicos a procurarem
essa formação.
Realmente! Não temos a oportunidade de aprender a realizar uma boa consulta para um surdo pelo que ouço falar na UFJF também... é uma pena.
ResponderExcluirIsa, infelizmente na maioria das escolas de Medicina do nosso país, mal se ensina, discute, debate sobre o sujeito humano e as suas complexidades. Somos condicionados a pensar única e exclusivamente na doença e na sua cura - o que é essencial para a formação do profissional médico. No entanto, é fundamental, também, a formação humana. O pouco que se escuta falar é nas primerias aulas de Semiologia/Semiótica.
ExcluirGostei muito da entrevista e da inicitiva de divulgar uma experiência com surdos, ainda mais no sistema da saúde, já que a sociedade não constuma discutir esse tema. Aliás a questão é que hoje as pessoas são muito individualistas e 'cegas' em relação a relidade social, apesar de tantos meios de informação. Nesse ponto, gostaria de comentar sobre o final do post - a disponibilidade do curso de libras nas faculdades está crescendo, pelo que já ouvi na universidade, mas percebi que os alunos não se interessam muito por libras, por tratarem apenas como um recurso de inclusão e que se o foco deles na faculdade não for questões sociais, não tem porque se preocupar com aprendizados como o de libras. E por outro lado, muitos alunos, de diversos cursos, fazem a disciplina como optativa e acabam gostando a ponto de pesquisar sobre o universo do surdo, sua cultura além das informações obtidas no fundamentos.
ResponderExcluirParabéns pelo post e pelo blog.
Dta;
Lorena,
ExcluirPrimeiro obrigado pela participação no blog. Segundo, com a minha experiência com o nosso curso de extensão de Libras para os estudantes da área da saúde, percebi que existem pessoas interessadas. Mas, até então, não tinham tido a oportunidade. Por isso eu acredito que o primeiro passo é criar as disciplinas nas faculdades, oferecer a oportunidade aos acadêmicos de aprender a libras.
E sobre o seu primeiro comentário, o grande problema, a meu ver, é que os cursos da a´rea da saúde e da exatas esquecem ou deixam os seus acadêmicos esquecerem que todas as profissões possuem um papel social a ser cumprido. Independente da área, as diferenças humanas deveriam ser trabalhadas. Mas isso, acredito ainda não existir na maioria deles.
Maravilhosa a entrevista... e perfeita a colocação feita por Lorena: "a disponibilidade do curso de libras nas faculdades está crescendo, pelo que já ouvi na universidade, mas percebi que os alunos não se interessam muito por libras, por tratarem apenas como um recurso de inclusão e que se o foco deles na faculdade não for questões sociais, não tem porque se preocupar com aprendizados como o de libras". O que me leva a uma grande reflexão sobre a forma que devemos abordar a Língua de Sinais no espaço acadêmico. Parabéns Renato pelo brilhante trabalho.
ResponderExcluirKátia, obrigado pelo comentário.
ExcluirComo respondi pra Lorena, oferecer o curso já é um começo. Mas é preciso que os cursos trabalhem as questões humanísticas de forma efetiva dentro da grade curricular. Oferece-se a Libras, mas não se debate a importância desse conhecimento para o profissional da saúde enquanto um prestador de serviços para a sociedade.